Uma menininha tão pequeninha e indefesa, dependente de tudo, uma completa dondoquinha, mimada, adorada, toda perfeitinha, loirinha, com olhões azuis. Suas bonecas eram suas filhas, suas pelúcias, seus bichinhos de estimação. Teletubies seu desenho predileto. Só adormecia depois de um belo conto de fadas, aqueles com reis e rainhas, príncipes e princesas, e o principal, finais felizes.
Aos poucos foi crescendo, aos sete anos não gostava mais que a tratasse como criancinha, o que na essência ainda era, fazia questão de falar pra quem quisesse ouvir que ela já era quase uma moça grande, e armava o maior escândalo com quem discordasse. Idade de começar a ir pra escola, conhecer alguns amiguinhos, mas não era o suficiente elas tinham de estar sempre lá, suas adoradas bonecas, não sossegava enquanto não certificava-se que elas estavam bem. Quando fosse um pouquinho mais velha sua profissão seria de apenas cuidar de suas bonecas, afinal não podia abandoná-las. Sonhos de criança, tão simples, mas tão verdadeiros.
Aos nove anos, já tinha muitos amigos, juravam amizades eternas, amavam brincar em casinhas que simulavam suas futuras casas, inventavam verdadeiros palácios onde imaginavam que eram princesas, com suas carruagens, os criados que cuidariam de tudo pra elas, e suas bonecas sempre lá, inseparáveis, sem elas nada tinha graça. Seus planos para o futuro haviam mudado a antes “cuidadora de bonecas” agora seria uma ultra top model famosa, mas quem menininha inocente nunca sonhou com isso?
Aos onze anos, tudo mudou, os amigos, os sonhos, as brincadeiras, os desejos, surgiram as primeiras paixões, as primeiras rejeições, e agora sim já não se considerava mais uma criança, achava que era totalmente independente, antes suas amadas bonecas, agora já não passavam de brinquedos velhos. Começou a usar maquiagem. Cansou do sonho infantil de supermodelo, agora seria uma veterinária, salvaria todos os animais, sem a ajuda de ninguém, seria ela e o mundo, e mais ninguém lhe dizendo o que fazer, o que era certo e o que era errado.
Mas agora já com quatorze anos, não sabe mais o que fazer, não descarta ajuda em nenhuma oportunidade, prefere ser totalmente dependente de seus pais. Sua profissão para o futuro? Não tem a menor ideia. Se arrependeu de ter esquecido tão cedo de suas bonecas, as vezes ainda as pegas para recordar os bons momentos, onde os príncipes não viravam sapo e os castelos não desmoronavam, pois seus sonhos eram verdadeiramente do coração. Agora que realmente tudo mudou, que realmente cresceu, tudo parece ter crescido com ela, os problemas principalmente. Tudo que ela gostaria neste exato momento, era pegar suas bonecas e voltar a ser aquela criancinha mimada e protegida, onde nada lhe atingia, e desta vez não teria pressa de crescer.
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